Podemos definir figurino para teatro como o modelo que representa, normalmente em desenho unidimensional, o conjunto dos elementos visuais do acto cénico (encenação) que se referem directamente ao corpo do actor e que se destinam a vestir a personagem que ele representa, em determinado contexto dramático.
Este conjunto de elementos visuais vai desde as peças de vestuário propriamente ditas, até às máscaras, cabeleiras, maquilhagem e acessórios diversos, como jóias, armas, etc..
O figurino de teatro pode, ou não, tentar reproduzir um tema, aproximando-o o mais possível da verdade histórica, através da observação exacta do gosto e dos hábitos duma determinada época e região ou pode, simplesmente, entender o trajo, numa perspectiva mais subjectiva e universal, de acordo com as suas funções de protecção do corpo, de hierarquização social ou de sedução.
De qualquer forma, e em qualquer dos dois casos, o figurino de teatro, enquanto projecto gráfico, nunca é alheio quer às correntes estéticas dominantes, quer às metamorfoses do corpo, dos comportamentos e das representações mentais do período histórico em que é executado.
Em Portugal é no séc. XVII que aparece, pela primeira vez, a referência a trajos para representações teatrais, embora se considere António Francisco, já dos finais do séc. XVIII, como o primeiro figurinista, ou vestuarista como então era designado.
No entanto, durante muito tempo, confunde-se quem desenha o trajo com quem o executa, sendo entendida como uma só função. Só no final do séc. XIX se começa a desenvolver, ainda muito tenuemente, a separação entre o artista que concebe e desenha o guarda-roupa, normalmente um artista plástico, e o artífice que o realiza.
É precisamente a este período que pertencem os figurinos originais mais antigos existentes nas colecções deste Museu. São seus autores o pintor e desenhador Manuel de Macedo (1839 -1915), Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) e Eduardo Machado (1854-1907). Trata-se de um núcleo de reduzidas dimensões mas de grande importância e significado histórico. Se nos desenhos de Manuel de Macedo, de grande rigor gráfico mas monocromáticos, não destacando o trajo da personagem que o veste e em que se reconhecem os traços do pitoresco pictórico que vão caracterizar outros trabalhos seus ou nos de Rafael Bordalo Pinheiro, em tudo semelhantes aos anteriores e algo longe da sua “imaginação transbordante e magnifico colorido”, já em Eduardo Machado é possível visualizar um trabalho mais teatral, policromático e em que o trajo, desenhado em vários ângulos, se destaca assumindo a sua função inicial de figurino. 

 Figurino para 'Sonho de uma noite de Verão', Companhia Rey Colaço Robles Monteiro, Teatro Ginásio, 1919. Desenho (Iluminura) de Alice Rey ColaçoFigurino para Rainha Yolanda para o espectáculo 'Joana d'Arc', Teatro Avenida, 1955. Autoria de Pinto de CamposFigurino para o homem do cravo' para o bailado 'O homem do cravo na boca', Companhia  Portuguesa de Bailados Verde Gaio, 1940.  Autoria de Bernardo MarquesFigurino para Branca para o espectáculo 'O tição negro', [s.d.].  Autoria de Manuel de MacedoPormenor de figurinos para Quatro músicos para o espectáculo 'O tição negro',  [s.d.].  Autoria de Manuel MacedoPormenor de figurino para Felisberto-Escrivão, [s.d.].  Autoria de Rafael Bordalo PinheiroPormenor de figurino para Diabo para o espectáculo 'Peça dos 3 Autores', 1913.  Autoria de Raul Lino

Quase contemporâneos daqueles, são o multifacetado Augusto Pina (1872-1938) – pintor e aguarelista, cenógrafo, decorador teatral, figurinista, chegando mesmo a director artístico do Teatro Nacional e Luís Salvador (1875-1949), cuja carreira artística se desenvolve, quase em exclusivo, no meio teatral que é, no fundo, também a sua família – é filho do empresário teatral Salvador Marques e pai do grande actor Eugénio Salvador - representados nesta colecção por alguns trabalhos executados já nas primeiras décadas do séc. XX.
É também no final da segunda década do séc. XX, que se vai assistir a um período de verdadeira renovação teatral e estética e que corresponde a uma das fases mais interessantes e criativas da história do desenho teatral na Europa e no nosso país. Esta verdadeira revolução plástica, entre nós encabeçada pelo pintor Almada Negreiros (influenciado, sobretudo, pelos Ballets Russes), vai levar para o Teatro e restantes Artes do Espectáculo uma geração de pintores e artistas plásticos ligados ao modernismo, dos quais estão representados nesta colecção do Museu os seguintes: Maria Adelaide Lima Cruz (1908-1985), cuja elegância e estilização inicial do traço faz lembrar o do desenhador teatral francês Erté, e que, depois de uma longa estadia em Paris, se aproxima da estética construtivista com claras influências de Exter e Tatlin indo, de uma forma dramática e progressiva, perdendo qualidades e a capacidade criativa que, no início, parecia adivinhar uma excepcional carreira artística que não teve; Raul Lino (1879-1974), notável arquitecto, que participa desde muito jovem, tal como Almada Negreiros e outros artistas seus contemporâneos, em serões teatrais em casas de amigos e familiares o que o leva às (irregulares) incursões, como criador, pelas artes do espectáculo; o seu belíssimo desenho teatral parece influenciado pelas suas estadias na Alemanha, mais a mais sabendo-se que participou como voluntário, em Berlim, num espectáculo de Max Reinhardt, em 1911, isto para além do (também) fascínio pelos Ballets Russes; Leitão de Barros (1896-1967), que se distinguiu, sobretudo, como cineasta; Tom/Tomás de Melo (1906-1990), pintor, caricaturista e decorador; Alice Rey Colaço (1893- ? ), irmã de Amélia Rey Colaço, possuidora de notável bom gosto e grande cultura artística, alguns dos seus desenhos/figurinos fazem lembrar Klimt; Júlio de Sousa (1906-1966 ), pintor, músico, escultor, poeta e desenhador de grandes recursos artísticos e teatrais; Armando Bruno (1907-1989), que desenha, sobretudo, para o teatro de revista e para o cinema; António Amorim (1898?-1964?) ilustrador, com uma passagem breve pelo teatro de revista; Jorge Herold (1907-1990), muito viajado e, por isso, um artista verdadeiramente do seu tempo, modernamente desenhando quer para o teatro de revista quer para o teatro declamado; Mário Gomariz ( d.d. – d.d.) que desenhou apenas para quatro revistas (1934 e 1935), nada mais se sabendo dele depois disso; Laierte Neves (1914-1981), com desenhos para dezenas de revistas e algumas operetas; e, por último, dois dos maiores desenhadores teatrais portugueses do séc. XX, José Barbosa (1900-1977) e Pinto de Campos (1908-1975), qualquer deles profusamente representados nas colecções deste Museu. José Barbosa, filho do escritor teatral Barbosa Júnior., era, tal como o pai, homem de grande cultura e muito viajado o que, aliado a um bom gosto inexcedível e a uma grande qualidade artística, vão ser factores decisivos para a verdadeira revolução que se vai operar no desenho teatral português. Percorrendo, com o mesmo à vontade, inspiração e contemporaneidade o teatro de revista ou os clássicos, o teatro infantil ou a dança, os modernos ou a ópera, José Barbosa, cujo traço delicado e de reduzidas dimensões, com cores claras, no início, e mais vivas no final da sua carreira, utilizando primeiro o papel de seda e depois a cartolina como suporte, “ para todos os géneros soube encontrar a atmosfera, a forma, a cor”, citando Vítor Pavão dos Santos, ”acrescida daquela criatividade e elegância que o torna diferente de todos”. Por sua vez, Pinto de Campos, figurinista e cenógrafo para cerca de 140 revistas, pode ser facilmente considerado o maior desenhador daquele género teatral. Mas a sua grande imaginação e enorme talento não se ficou por aí, tendo também criado trajos, adereços e cenários para opereta, para comédia, para os clássicos, para cinema e, até, para o teatro mais experimental e vanguardista, que no final da década de 60 dava os seus primeiros passos em Portugal (o Grupo 4, por exemplo). Caracterizado por um excesso de estilização dos corpos, cinturas muito finas e braços e pernas esguios mas de extrema elegância, “conjugando tons pastel, fazendo verdadeiros tratados em rosa, uma das suas cores preferidas, compondo variações em tons de castanho ou de cinzento, trabalhando as riscas e os drapeados com mão de mestre”, citando, uma vez mais, Vítor Pavão dos Santos. Influenciado quer pelos musicais da Broadway, quer pelas revistas e pela moda parisienses, a carreira de Pinto de Campos é indissociável de nomes como o bailarino Piero, Eugénio Salvador e Vasco Morgado, em cujo palco do seu Teatro Monumental veio a falecer. Fazendo parte integrante da história e da vida do Parque Mayer, nele encontrou e deixou como seu maior discípulo Mário Alberto (n. 1925), dividindo a sua grande capacidade plástica entre a revista e o teatro de autor ou independente, para além do desenho humorístico e a pintura.


                         Pormenor de figurino D. Paio para a revista 'Tudo na lua', Teatro Maria Vitória, 1959. Autoria de Pinto de CamposFigurino para Baixa para a revista 'Feira da luz', Teatro da Trindade, 1930.  Autoria de Maria Adelaide Lima CruzFigurino para Serenins de Queluz para a revista 'Rambóia', Teatro Maria Vitória, 1928.  Autoria de José BarbosaPormenor de figurino para Damas da corte do quadro 'Reino dos cataventos' da revista 'Tangerinas mágicas', 1906.  Autoria de Eduardo Machado

 Pormenor de figurino D. Maria de Noronha para  o espectáculo 'Frei Luís de Sousa', Companhia Rey Colaço Robles Monteiro , Teatro Nacional D. Maria II, 1948.  Autoria de José BarbosaPormenor de figurino para Hortelões para o espectáculo 'Pimpinela', Companhia Rey Colaço Robles Monteiro, Teatro Nacional Almeida Garrett, 1938.  Autoria de José BarbosaPormenor de figurino para Simoneta Steno para o espectáculo 'Carnaval', Companhia Rey Colaço Robles Monteiro, Teatro Nacional D. Maria II, 1930.  Autoria de José BarbosaPormenor de figurino para Salomé para o espectáculo  'Auto de S. João Baptista', Teatro do Povo, 1954.  Autoria de José BarbosaPormenor de figurino para La Tremoille para o espectáculo 'Joana d'Arc', Teatro Avenida, 1955.  Autoria de Pinto de CamposPormenor de figurino para Pelleas para a ópera 'Pelleas', Teatro Real de Ópera de Roma, [19--].  Autoria de Alfredo FurigaPormenor de figurino para Vendilhões para o espectáculo 'Tição negro', Companhia Sousa Bastos, Teatro Avenida, 1902.  Autoria de Manuel de Macedo