A colecção de fotografias do Museu Nacional do Teatro, constituída por mais de 90.000 espécies, na sua grande maioria positivos impressos em suporte papel, constitui o núcleo mais importante do nosso país nesta matéria.
Com um valor documental único, dela resulta a memória gráfica de uma parte significativa do nosso passado teatral.
Sendo o teatro fotogénico por natureza, desde a invenção da fotografia que estas duas artes andam em permanente comunhão. A tentação de fotografar (retratar) o actor na sua pose, no seu olhar interiorizado, transformando-se na imagem de uma imagem de uma personagem ou de uma situação, nasce com a invenção desta arte. Se o actor vai ser, durante muito tempo, o objecto privilegiado do fotógrafo/retratista, deve ter-se em conta que, no século XIX, a fotografia de teatro tem sobretudo a função de promoção dos actores, sempre enquadrada por iluminações e adereços sofisticados, que remete mais para a mitificação e culto da pose do que para o conhecimento de determinado papel ou da acção cénica. Melhor do que ninguém, a actriz francesa Sarah Bernhardt (1844-1923) soube tirar partido desse novíssimo instrumento, tornando-o assim um complemento inseparável da necessidade de idealização que o público tem. E talvez tenha sido o seu fotógrafo preferido, Félix Nadar (1820-1910), que, ao perceber que a escolha da pose nunca é acidental, tenha criado uma estética do retrato de actor.
Mas é com a possibilidade de imprimir reproduções fotográficas em jornais e revistas, por volta de 1882, que se vai criar um verdadeiro mercado de fotografia de teatro. Esta situação conduz, de imediato, à divisão, ainda actual, entre a fotografia documental, com uma função essencialmente comunicativa, e a fotografia artística, entendida como puro objecto estético.

                   Fotografia de Amália RodriguesFotografia de Carmen DoloresFotografia de Manuela de FreitasFotografia de Mário Viegas

Esta colecção, sem ignorar aquela tradicional divisão da fotografia de teatro, está agrupada em três grandes núcleos temáticos:
- retratos fotográficos de actores, dramaturgos, encenadores, técnicos e gente de teatro;
- fotografias de cena;
- fotografias de espaços de representação: teatros (interiores e exteriores), públicos, publicidade.
Uma parte significativa dos dois primeiros núcleos são trabalhos originais de importantes fotógrafos ou de estúdios e casas fotográficas portuguesas, nomeadamente: Alfred Fillon (1825-1881), Bobone (1894 - ?), San Payo, Mário Novais, Horácio Novais, Silva Nogueira, Bourdain de Macedo, S. Diniz (1900-1955), J. Marques, José Tudela, Homem Cardoso, Jorge Gonçalves, Luís Jorge Carvalho (1954), Augusto Cabrita ( 1923-1992) e Eduardo Gageiro (1935) .
Assim, num núcleo com dezenas de milhares de espécies, existem originais de retratos fotográficos de mais de 1.000 personalidades, as quais, na sua grande maioria, correspondem a actores e actrizes, desde os primórdios da fotografia em Portugal até à contemporaneidade. Destacam-se, entre muitas outras, as colecções de retratos de Emília das Neves (1820-1883) Taborda (1824-1909), Isidoro (1828-1876), Tasso (1820-1870), Maria Pia (1864 1940), Sargedas (1813-1866), Maria Vitória (1891–1915), pela sua raridade e antiguidade, e pela quantidade e qualidade os da família Rosa (Augusto Rosa (1852-1918) e João Rosa (1843-1910), e de actriz Virgínia (1850-1922) , Joaquim Costa (1853-1924), Eduardo Brasão (1855-1925), Rosa Damasceno (1849-1904), Ferreira da Silva (1856-1923), Ângela Pinto (1869-1925), José Ricardo (1860-1925), Lucília Simões (1879-1962) e Lucinda Simões (1850-1928), Chaby Pinheiro (1873-1933), Amélia Rey Colaço (1898-1990) e Mariana Rey Monteiro (n. 1922), Palmira Bastos (1875-1967), Estêvão Amarante (1889-1951) e Luísa Satanella (1895-1974), Erico Braga (1893-1962), Ilda Stichini (1895-1977), Joaquim de Oliveira (1893-1982), Augusto Costa (Costinha) (1891-1976) e Luísa Durão (1899-1977), Francis Graça (1902-1980), Maria Matos (1886-1952) e Maria Helena Matos (1911-2002), Vasco Santana (1898-1958), Corina Freire (1897-1986), Beatriz Costa (1907-1996), Mirita Casimiro (1916-1970), Amália Rodrigues (1920-1999), Carlos Coelho (1923-2000), Laura Alves (1922-1986), Eunice Muñoz (n. 1928), José de Castro ( 1931-1977), Ivone Silva (1935-1987), Mário Viegas (1948-1996), Rogério Paulo (1927-1993), Raul Solnado (n.1929) e Rui Mendes (n.1937). 


                            Fotografia de Amélia Rey ColaçoFotografia de João VillaretFotografia de Beatriz CostaFotografia de Corina Freire


Em relação ao segundo núcleo, fotografias de cena, destacam-se as notáveis colecções da Companhia Rey Colaço Robles Monteiro, cujos mais de 50 anos de actividade estão praticamente todos fotograficamente representados, da Empresa Vasco Morgado com os diversos Teatros de que foi empresário, de Francisco Ribeiro (Ribeirinho) (1911-1984) e das diferentes companhias que dirigiu (Teatro do Povo, Comediantes de Lisboa e Teatro Nacional Popular, entre outras), do Teatro Infantil do Rossio, da Companhia Portuguesa de Bailados Verde Gaio, Teatro Apolo, Teatro do Gerifalto, Teatro Estúdio de Lisboa, Adoque, Teatro Maria Vitória, Teatro ABC, Artistas Unidos, Teatro Aberto e do Grupo 4, com uma excepcional colecção de fotografias de cena e de ensaios (quase todas da autoria de Augusto Cabrita ou Eduardo Gageiro) que retratam a marcante carreira deste grupo de teatro.
De referir ainda, neste núcleo, a existência de uma colecção de fotografias de teatro de uma Revista não identificada, executadas em 1895, que serão, por certo, das primeiras fotografias de cena produzidas no nosso país, a colecção rara de algumas representações da Companhia de teatro itinerante Rafael de Oliveira e as centenas e centenas de fotografias de cena tiradas por António de Magalhães (1917-1999), o maior espectador de teatro português do século XX, grande Amigo deste Museu e seu permanente doador e trabalhador voluntário (desde 1985 até à sua morte) e fotógrafo amador de teatro, com autorização especial de todas as companhias e grupos de teatro para fotografar os seus espectáculos.
Desta sua inesgotável paixão, resultou uma colecção única de fotografias de cena, por ele organizadas em álbuns, que retratam, de forma notável, a História do Teatro português nos últimos 25 anos do século XX.