O teatro e a música têm sido sempre artes complementares, desde a utilização pura e simples de música (como uma espécie de banda sonora) nos espectáculos de teatro, até ao teatro musicado propriamente dito, do teatro de revista à opereta, e terminando na ópera, esta sim, a verdadeira arte total como foi entendida por Wagner. É curioso citar, uma vez mais, Sousa Bastos a este propósito: “ (...) não há theatro onde a musica não tenha o seu logar, seja como elemento preponderante, seja como elemento necessário. Em toda a espécie de espectáculos a musica é convenientíssima e muitas vezes indispensável”.

Deste núcleo fazem parte duas colecções de grande importância para a compreensão da História da música de raiz popular e da música teatral no nosso país, sendo a primeira constituída por centenas de partituras/folhas de música impressas e a segunda por mais de 7.000 registos fonográficos.

As folhas de música reproduziam grandes êxitos retirados de espectáculos teatrais, desde cantigas, fados, tangos, maxixes, fox-trot, entre outros géneros musicais, eram editadas por casas da especialidade e divulgadas e vendidas por todo o país, e a sua procura o maior ou menor sucesso de uma determinada canção. Muito em voga no final do século XIX e primeiras décadas do século XX, permitiam que esse sucesso fosse tocado e cantado em qualquer parte, perpetuando-se assim (no espaço e no tempo) muito para além do espectáculo para que foi criado e efemeramente cantado. Este tipo de publicações vai lentamente desaparecendo e ficando fora de moda à medida que vão surgindo novos meios técnicos como a gravação fonográfica (que regista, memoriza e reproduz) e as emissões radiofónicas (que divulgam diária e amplamente para qualquer lugar), deixando praticamente de existir a partir dos anos 40 do século passado.

Uma outra curiosidade destas folhas de música é a sua grande qualidade gráfica, sendo a capa de muitas delas desenhadas por grandes artistas plásticos portugueses como Almada Negreiros, Carlos Botelho, Jorge Barradas, Maria Adelaide de Lima Cruz e Stuart Carvalhais, entre outros, adquirindo agora, por via disso, um valor patrimonial e artístico que ultrapassa, muitas vezes, a função inicial para que foram criadas.

A fonoteca é constituída por discos de 78, 45 e 33 rotações/minuto, cassetes e CDs. A colecção de discos de 78 rotações, com mais de 1.700 exemplares, assume aqui especial importância, não só pela raridade de muitos dos seus exemplares, mas também porque se transformaram no único meio para ouvir a voz de actores e cantores míticos cujo auge ou final de carreira quase coincide com o aparecimento e desenvolvimento desta tecnologia no nosso país, anterior ao cinema sonoro, como são o caso de Chaby Pinheiro (1873-1933), Eduardo Brasão (1855-1925), Adelina Abranches (1866-1945), Carlos Santos (1872-1949), Delphina Victor (1872-1960) ou Maria Victória (1891-1915 ), entre outros. E se o fado é a canção dominante, também é possível escutar muitas cantigas (a solo ou em dueto) de teatro de revista, excertos de clássicos da literatura dramática portuguesa e universal, normalmente em monólogos e ainda poesia declamada.

Esta colecção é também exemplo de como a memória ou o registo do trabalho do actor tem evoluído, desde meados do séc. XIX até aos nossos dias, com o desenvolvimento tecnológico da humanidade, desde a invenção da fotografia, com a qual é possível registar e perpetuar, não só, o retrato do actor, mas também, através de imagem fixa, o seu trabalho de palco e a personagem que assume (a máscara do actor) neste ou naquele instantâneo, depois, com o aparecimento da gravação e reprodução sonora, a possibilidade de registar outro instrumento fundamental do seu trabalho – a voz e, finalmente, primeiro com o cinema e, depois, com a gravação de imagem em movimento em formato vídeo e, actualmente, em digital, o registo da totalidade do espectáculo teatral. Obviamente que estas novas capacidades em produzir, preservar e reproduzir memórias dão a um museu de teatro uma nova dimensão e alteram, substancialmente, o conceito mais clássico de peça (ou objecto) de museu.