Sempre presente no acto teatral, desde o seu início, o trajo de cena tem a longa história da arte dramática. Entendido inicialmente como meio de identificação ou de disfarce da personagem limita-se, durante muito tempo, a ter o papel de simples caracterizador com a função de vestir esta ou aquela personagem de acordo com as características de determinada condição ou situação. Contudo, desde o princípio do séc. XX que o trajo de cena conquista um lugar e uma função muito mais ambiciosa na representação teatral, situando-se como mais um elemento no trabalho de totalidade que é a encenação e a concepção plástica do espectáculo. Já não é apenas a sua função sinalética e naturalista que mimetiza e dá indicação clara sobre a personagem que o veste (a idade, o sexo, a profissão, a condição social ou, até, o perfil psicológico) que está em causa; apesar de manter essa sua característica inicial de identificador da personagem, ele torna-se um elemento dinâmico que pode evoluir durante o espectáculo, através de um sistema e de um jogo de cores e formas que procura, com todos os restantes elementos que constituem o espectáculo, uma coerência, uma complementaridade ou um contraste, dando oportunidade ao espectador de o ler como um objecto portador de signos relativamente à acção, à situação ou à atmosfera pretendida pelo encenador. De referir, ainda, o cruzamento e as influências (dos pontos de vista estético e técnico) que a moda tem tido na evolução do trajo de cena, não sendo alheio a esta situação o facto de muitos criadores de moda contemporâneos, em todo o mundo, serem chamados a desenhar para as artes do espectáculo.

Apesar de existirem poucos elementos concretos que dêem informação sobre a evolução do trajo de cena em Portugal, a sua história será, em tudo, muito semelhante à dos figurinos. Já atrás se falou no tal vestuarista António Francisco, do final do séc. XVIII, como a primeira referência ao trajo de cena no nosso país. Por volta de 1850, época dominada pelo grande génio de Garrett, aparecem referências a Manuel Bordalo Pinheiro, (pai de Columbano e Rafael Bordalo Pinheiro) e Braz Martins como criadores de trajos de cena. Mas é em 1880, com o aparecimento da Companhia Rosas & Brasão, que se assiste a um verdadeiro renascimento do teatro em Portugal, quer na arte de representar e no repertório seleccionado, quer no grande rigor estético e cuidado postos, pela primeira vez no nosso país, tanto na escolha da cenografia como do guarda-roupa.

Com esta Companhia trabalham os desenhadores Carlos Cohen, Manuel Castelo Branco, que constitui, depois, o primeiro grande armazém de trajos de cena ao qual, através de aluguer, podem recorrer os mais diversos actores e companhias, prática que actualmente se mantém para o cinema e para todas as artes do espectáculo, e, sobretudo, Augusto Pina, todos seguidores de uma estética naturalista, então dominante, a qual pretende reproduzir, tão rigorosamente quanto possível, os trajos e acessórios próprios da época ou do ambiente do respectivo enredo teatral.

Data deste período o trajo de cena mais antigo pertencente ao acervo do Museu, um magnífico vestido em veludo vermelho cinzelado para a peça “A Princesa de Bagdad” de Alexandre Dumas, levada à cena pela Companhia Rosas & Brasão em 1881 e desenhado por Carlos Cohen para a actriz Virgínia.

A colecção de trajos de cena deste Museu, constituída actualmente por cerca de 2.500 peças tem como núcleos principais os seguintes:

                               Pormenor de traje para Igreja para o espectáculo 'Auto da Alma', Companhia Rey Colaço Robles Monteiro, Teatro Nacional de São Carlos, 1965.  Autoria de Almada NegreirosTraje para Imperatriz para o espectáculo 'D. Duardos', Teatro do Povo, 1952. Autoria de Abílio Mattos e SilvaTraje para Manuel Simplício para o espectáculo 'O Morgado de Fafe em Lisboa', Teatro do Povo, 1954. Autoria de José BarbosaTraje para Cardeal Rufo para o espectáculo 'A ceia dos cardeais', Companhia Rosas & Brasão, Teatro Nacional D. Maria II, 1902.  Execução de Carlos Cohen


Núcleo Eduardo Brasão

Conjunto de trajos de cena de grande rigor histórico, tentando reproduzir com exactidão os trajos verdadeiros da época da personagem a que se destinam. Criados, alguns deles por Carlos Cohen, entre 1881 e 1896, estão em excelente estado de conservação pois, apesar de terem sido, quase todos, objecto de trabalho de restauro, são executados em materiais e tecidos de grande qualidade, então propositadamente importados das grandes capitais europeias. Este conjunto integra também uma notável colecção de armas (falsas e autênticas) e jóias de cena, também falsas mas executadas por grandes joalheiros nacionais e estrangeiros. Apesar de não existirem figurinos, existem fotografias de época destes trajos, muitos deles vestidos pelo próprio actor. Trata-se de um núcleo extremamente completo e rico, que dá informação preciosa sobre a estética do teatro naturalista, em particular e, em geral, do teatro português no final do séc. XIX.


Núcleo Teatro do Povo

Trajos criados e inventados pelos grandes desenhadores teatrais José Barbosa e Abílio de Mattos e Silva, com influências marcadamente ideológicas de sentido histórico/nacionalistas, executados sob orientação dos seus autores com grande mestria mas em materiais e tecidos pobres ou de fraca qualidade mas com um efeito final (em cena) de grande sentido teatral e espectacular. Datados quase todos entre 1952-56, destinavam-se a vestir as personagens dos grandes autores clássicos do teatro português e europeu (Gil Vicente, António Ferreira, Garrett, Shakespeare, Molière). Existem, dos trajos pertencentes a este núcleo, algumas fotografias de cena e muitos figurinos originais.


Núcleo Grupo de Bailados Portugueses Verde Gaio

Influenciados (tardiamente) pelos Ballets Russes são, tal como estes, uma inspiração moderna na tradição popular e folclórica nacional, neste caso portuguesa, transformando-os, por isso, num conjunto excepcional, de grande beleza e espectacularidade. Este núcleo é constituído por mais de 150 trajos executados entre 1940 e 1949, a partir dos trabalhos dos pintores e desenhadores modernistas Thomaz de Melo (Tom), Bernardo Marques, Maria Keil, Mily Possoz, José Barbosa e, sobretudo Paulo Ferreira, que é, de todos eles, quem mais desenhou para o Verde Gaio, escrevendo, também, argumentos e chegando a director artístico daquela Companhia de Bailado.

O Museu possui vasta colecção de figurinos originais e muitas fotografias de cena referentes a este notável conjunto de trajos para bailado.


Núcleo Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro

Trajos de diversas épocas e com os mais diferentes tipos de execução, muitos deles de grande qualidade estética e de fabrico confundindo-se, até, com trajos do quotidiano ou tendo mesmo, alguns deles, essa dupla utilização. Atravessando mais de meio século, desde o quimono de seda azul estampada e bordada a seda, magnificamente desenhado por Alice Rey Colaço, e usado por sua irmã Amélia na peça “Sonho de Uma Noite de Agosto”, em 1919 e, depois, na sua única presença no cinema, em “O Primo Basílio” de 1923, até aos últimos espectáculos no início da década de 70, este magnífico conjunto de trajos de cena percorre uma grande parte da história das artes do espectáculo, do desenho teatral e da moda do séc. XX português. A inteligência, o bom gosto e consciência do teatro como uma arte da modernidade, levam Amélia Rey Colaço a requisitar pontualmente a colaboração, como figurinistas, de grandes artistas como Almada Negreiros, do qual, apesar de nas colecções deste Museu não existirem desenhos originais, resta um núcleo de trajos de cena da maior importância e do qual adiante se falará, ou como Raul Lino, cujos belíssimos figurinos originais integram, como já foi referido, as colecções do Museu, para além da própria Amélia Rey Colaço, muito próxima da moda do seu tempo, marcar presença como figurinista, nos primeiros tempos da Companhia. Contudo, são José Barbosa e Lucien Donnat, o primeiro entre 1930 e 1944, e o segundo de 1941 até ao fim da Companhia, em 1974, que se assumem como figurinistas (e como cenógrafos) residentes e cuja grande parte dos trabalhos originais integra, como já foi referido, o acervo deste Museu. Apesar de não haver, infelizmente, uma correspondência quantitativa directa entre uma parte dos trajos que constituem este núcleo e os trabalhos dos desenhadores atrás mencionados, é neste contexto que este importante núcleo deverá ser entendido. De referir, ainda, o trabalho de execução de alguns destes trajos da responsabilidade de Maria Meirinho.

São parte integrante e significativa deste núcleo uma importante colecção de chapéus, uma colecção de jóias de cena e inúmeros adereços para trajo e para cena. Destes trajos, chapéus e adereços existem também fotografias de cena.


Núcleo Auto da Alma/Almada Negreiros
Núcleo Auto da Alma / Almada Negreiros
Conjunto de trajos de cena da maior importância para este Museu e para o entendimento da História da Arte em Portugal no séc. XX. Apesar de terem sido executados para a Companhia Rey Colaço Robles Monteiro, tendo em conta o seu enorme significado e o facto de terem passado a integrar o acervo do Museu Nacional do Teatro, não através do espólio daquela Companhia mas a partir duma doação particular (Jorge de Brito), dão-lhe este estatuto autónomo sendo entendidos, do ponto de vista museológico, como um núcleo próprio. Constituído por 12 trajos de cena para a peça “O Auto da Alma”, de Gil Vicente, totalmente desenhados e parcialmente executados por Almada Negreiros (que também encenou o espectáculo) a pedido da Companhia Rey Colaço Robles Monteiro para as Comemorações do V Centenário do Nascimento de Gil Vicente, levada à cena no Teatro Nacional de S. Carlos em 1965. Estes trajos, de enorme interesse e valor artístico e patrimonial, inspirados ora na pintura sacra de Zurbarán, ora utilizando motivos dos painéis de S. Vicente cruzados com a figura do Arlequim, constituem um deslumbrante conjunto revelador da profundidade, do saber e da imaginação com que Almada encarou, sempre, todas as artes. Os figurinos originais destes trajos de cena encontram-se em colecção particular.

Pertencem ainda a este núcleo, como adereços de cena, dois magníficos vitrais executados por Almada, um mais pequeno representando a Senhora das Dores e outro, de maiores dimensões (cerca de 5 metros de altura) com uma notável composição em torno da figura da Igreja e dos seus quatro doutores, encimado por uma cruz com a Pomba do Espírito Santo e, em baixo, pela derrota dos dois Diabos, e um espectacular Crucifixo, também integralmente executado pelo Mestre, utilizando apenas madeira e lata.

Deste extraordinário conjunto existem algumas fotografias de cena.


Núcleo Amália Rodrigues

Constituído por cerca de 60 trajos (para concerto, teatro, cinema e quotidiano) que foram usados por esta enorme artista nas mais diversas circunstâncias e em grandes palcos do mundo: Olympia em Paris, Lincoln Center em Nova Iorque, Canecão no Rio de Janeiro, Teatro Sistina em Roma, Coliseu dos Recreios em Lisboa, apenas para citar alguns. Desenhados e executados, na sua maioria, por ateliers de alta costura (Ana Maravilhas, Maria Teresa Mimoso) ou por desenhadores teatrais (Pinto de Campos), são de grande qualidade e rigor estético. Merecem realce o vestido negro usado na opereta “Mouraria”, em 1946, desenhado por Pinto de Campos, e que inspirou, a partir daí, a utilização daquela cor nos vestidos por ela usados (cor negra que é, aliás, dominante neste núcleo do Museu), estendendo-se, depois ao fado quase que como uma regra perdida no tempo e que não é mais, afinal, do que uma criação de Amália, o vestido para o espectáculo “Numa Aldeia Portuguesa”, usado na sua primeira viagem ao Brasil em 1944 e o vestido de concerto desenhado por Pinto de Campos e executado por Maria Teresa Mimoso, usado no Lincoln Center de Nova Iorque em 1966 .

Este núcleo é complementado por um conjunto de jóias de cena e outros adereços de trajo, nomeadamente xailes, entre os quais o que terá usado numa das suas primeiras aparições públicas. Existem no Museu inúmeros documentos e fotografias onde estes trajos podem ser vistos. 

                                        Pormenor de traje de cena para Amália Rodrigues para a opereta 'Mouraria', Teatro Apolo, 1946.  Autoria de Pinto de CamposTraje usado pela actriz Virgínia no espectáculo 'A Princesa de Bagdad', Companhia Rosas & Brasão, Teatro Nacional D. Maria II, 1881.  Execução de Carlos Cohen

Núcleo Ivone Silva

Cerca de dezena e meia de trajos de cena para teatro de revista, a maioria desenhados por Helena Reis. Conjunto de grande fantasia e imaginação, à mistura com algumas notas de humor, caracterizam na perfeição aquele género teatral e evocam a sua última grande actriz.


Núcleo Filipe
La Féria

Conjunto de trajos desenhados por Filipe La Féria para encenações suas na Casa da Comédia nos anos 80 que, para além da imponência, prodigiosa concepção a partir dos materiais mais diversos (couro, peles, metal) e do notável efeito teatral que produzem, criam ambientes simultaneamente poderosos e clássicos, desde o nascimento da tragédia na Grécia Antiga até ao Japão dos samurais (e de Mishima).

Outros núcleos importantes são os das actrizes Adelina Fernandes, Maria Matos, Hortense Luz, Laura Alves, Milú, Eunice Muñoz e Luzia Maria Martins/Helena Félix/Teatro Estúdio de Lisboa, e ainda trajos de cena de Cármen Dolores, Maria do Céu Guerra, Companhia Rafael de Oliveira, Leónia Mendes, Lia Gama, Mário Viegas e Paulo Renato.

Por último, de referir que o Museu dispõe duma oficina de restauro de têxteis que executa todo o trabalho de restauro e conservação das peças que integram esta colecção.